Hoje é dia do advogado. Passados 19 anos desde o o dia em que tomei a decisão de seguir a carreira de advogado, muita coisa mudou em minha vida, em minha carreira e na própria visão que eu tenho da profissão que escolhi para exercer ao longo da minha vida.
Em primeiro lugar, quando iniciei a carreira, eu julgava que, provavelmente, eu seria advogado pelo resto de minha vida e hoje não tenho mais certeza se quero realmente exercer a profissão até morrer.
Tenho a impressão de que isso, também, ocorre com outros profissionais após um certo tempo de formado e, nesse aspecto, acho que a advocacia acabou se mostrando uma boa opção, já que nada me impede de continuar a exercê-la ou deixá-la, algo que muito poucos profissionais em outras áreas de atuação podem se dar ao luxo de fazer.
A advocacia proporcionou-me, ao longo desse tempo, realizar todos os meus objetivos pessoais, familiares e patrimoniais e, também, nesse sentido, devo muito a essa profissão.
A advocacia proporcionou-me, ainda, respeito social e intelectual e, também, nesse aspecto sinto-me realizado.
Mas o que é, então, que me impele em direçao à mudança e que me faz sentir uma certa frustração em relação à profissão.
Em primeiro lugar, acho que isso acontece porque a advocacia, como algumas outras poucas profissões, exige uma vocação verdadeira e profunda para o seu desempenho, muito menos, por suas vantagens, mas, pelas inúmeras exigências e desgastes que a profissão reserva aos seus praticantes.
A começar pela capacidade de se indignar. Poucos cidadãos são tão exigidos quanto os advogados nesse aspecto. A sociedade exige do advogado e, o mais das vezes, ele próprio exige de si, uma postura sempre vigilante e proativa em relação à obediência aos direitos inerentes à cidadania.
Essa postura cansa e desgasta muito o advogado e não por outra razão, veem-se tantos profissionais levados ao extremo da atuação profissional, em função da reparação de situações consideradas injustas.
Por outro lado, o advogado é o operador do Direito colocado exatamente entre a a sociedade, a quem serve individual ou coletivamente, e o Estado, através do Poder Judiciário, perante quem reivindica os interesses que representa.
A sociedade moderna e democrática não pode prescindir da presença do advogado, mas não me parece respeitá-lo e admirá-lo na medida de seu sacrifício por ela e, nesse sentido, tenho sempre dito que desafio qualquer outra corporação profissional a investir em tempo e dinheiro o que a Ordem dos Advogados do Brasil investe na defesa de interesses primordialmente coletivos .
Nesse sentido, já aviso de antemão, que isso não quer dizer que ela não proteja os interesses específicos dos advogados, o que afirmo é que, comparativamente, nenhuma outra corporação usa tanto de seu tempo e de seus recursos na defesa de interesses da sociedade como um todo, às vezes em prejuízo do interesse específico do advogado.
Quem não concordar com essa tese, basta analisar a história política recente do Brasil e apontar onde estavam os membros de outras tantas profissões e cargos de poder no país, durante o período militar.
A análise dos indicadores de aceitação social do advogado demonstra que o advogado está entre os profissionais menos admirados podendo-se dizer até que esse profissional é odiado por parte significativa da sociedade.
Reconheço que uma parte dos profissionais contribui, infelizmente, muito para que essa situação tenha se consolidado no inconsciente coletivo, mas não posso dizer que me sinto feliz em ser comparado com qualquer tipo de profissional desajustado moralmente.
Por fim, sou obrigado a admitir que sinto uma profunda frustração em relação ao Poder Judiciário, para mim, o Poder que, em nosso país, menos representa e menos se preocupa verdadeiramente com o povo.
Pior do que isso, eu ficaria um pouco mais aliviado se os próprios membros desse Poder fossem compelidos a explicar eles próprios ao povo as razões absurdas para a demora nos processos, as manobras "interna corporis"( com a participação de colegas advogados, é claro), a falta de transparência administrativa, a falta de controle sobre horário de trabalho e desempenho de magistrados, a falta de transparência quanto a punições de magistrados ( a punição costuma ser a aposentadoria, ou seja, a punição é um presente ).
Mais do que isso, guardadas as exceções, há um desrespeito considerável à pessoa do advogado que vai desde o controle autoritário das audiências com o cerceamento da produção de provas até o aviltamento insidioso dos honorários de sucumbência.
A impressão que tenho é que vai longe, muito longe, volto a dizer, guardadas as proporções e as honrosas exceções, a tão propalada urbanidade entre o Judiciário e a classe dos advogados.
O advogado incomoda o Judiciário porque o retira de sua zona de conforto paquidérmica.
O Judiciário é o Poder do Estado por excelência, pois que a aura de sua respeitabilidade é necessária à própria existência do Estado de Direito.
O Judiciário atual tornou-se um poder privilegiado com recursos constitucionais permitem remunerar seus membros muito acima da média dos outros poderes, sem que com isso, possa se dizer, que preste um serviço à sociedade coerente com a despesa necessária à sua manutenção.
Quem não concordar com essa tese, pode se permitir comparar as médias salariais entre servidores e membros de poder , além, é claro de comparar a suntuosidade dos palácios com a precariedade dos hospitais públicos, por exemplo.
Todo esse contexto me levar a refletir sinceramente sobre o meu futuro na profissão. É esperar para ver.
Postado em 11 de Agosto de 2009
Francisco Belgo
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
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